terça-feira, 25 de julho de 2017

Um crime no expresso do Oriente, Agatha Christie

Damasco, hoje destruída, foi em tempos uma cidade florescente. Entre os muitos visitantes, reais e imaginados, Hercule Poirot, o detective das celulazinhas cinzentas. É na capital síria que o belga embarca no mítico Expresso do Oriente. Um nevão impede, porém, o comboio de seguir o seu caminho com a competência habitual. E, na mesma noite em que a neve lhe tapa os trilhos, um dos passageiros morre em circunstâncias violentas. Não há crimes perfeitos (pelo menos quando são descobertos) e este conta com dois contratempos de peso: o nevão e Hercule Poirot. Na minha opinião este é um dos melhores livros de Agatha Christie. A trama está bem construída, as personagens são consistentes e, quando o li pela primeira vez, o final realmente surpreendeu-me. Para além disso, e numa leitura mais profunda, são várias as questões éticas que se colocam: pode a vindicta privada ser legítima? A componente retributiva é um aspecto essencial da pena mesmo quando se afasta “o olho por olho, dente por dente”? Pode o investigador absolver? Razões mais do que suficientes para ler e reler esta obra de Christie. 


sábado, 24 de junho de 2017


(Fotografia extraída da net, sem menção de autoria)


     A casa de Rimbaud em Harar na Etiópia. O poeta francês viveu na cidade, mas não nesta casa, que nem sequer existia. Foi muito mais tarde construída e é um museu dedicado à memória do poeta. Longe da guerra, da fome e da doença há um país que para os portugueses foi sempre uma fantasia, o reino do sonhado Preste João da Índia. E há quem defenda que foi também uma das inspirações da Utopia de Thomas More. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Assembleia de Mulheres, Natália Nunes

    Não sei se Natália Nunes faz parte daqueles autores que foram em tempos conhecidos e depois caíram no esquecimento. O nosso país tem uma lista razoável desses escritores: Ferreira de Castro, José Rodrigues Miguéis e Jorge de Sena, apenas para dar alguns exemplos. Comprei Vénus Turbulenta há vários anos (fiquei curiosa com o título e arrisquei) e posso dizer que foi um dos livros que mais gostei de ler. A protagonista, nascida no seio de uma família burguesa, liberta-se das amarras e limitações da sua educação, trocando a realização das expectativas que a família e o meio social tinham para si pela construção da sua própria vida, livre e senhora das suas escolhas. Na altura, pareceu-me que Natália Nunes, com a sua escrita confessional e intimista, tinha a capacidade de entrar dentro dos seus protagonistas, ler o meio em que se inseriam e oferecer uma história em que o leitor/a conseguia rever-se, ainda que a sua própria vida estivesse nos antípodas do que ia lendo.
        Uma das provações do leitor português é a dificuldade em encontrar os livros que quer ler quando se trata de obras que já têm alguns anos e que por isso dificilmente se encontram nas livrarias. Neste momento, eu própria enceto uma busca por Passagem para a Índia de E.M. Forster, livro em tempos editada em Portugal e agora desaparecido. Mas isso são contas de outro rosário e se trago aqui esta pequena dificuldade pessoal, é porque também se revela difícil encontrar as obras de Natália Nunes. Mas elas existem, sem dúvida. E, assim, consegui encontrar Assembleia de Mulheres. A primeira edição deste livro é de 1964. E esse é um aspecto essencial para se perceber o carácter revolucionário da obra. Acompanhamos o quotidiano de várias mulheres que trabalham como curadoras num museu de Lisboa. Para além dos diálogos, a autora introduz-nos nos pensamentos de cada uma delas (muitas vezes de sentido inverso ao que dizem). Conhecemos a sua falta de horizontes, o modo como esperam de forma impaciente pelo toque das 17h00 que anuncia o fim de mais uma jornada laboral (que de trabalho tem pouco) e os seus preconceitos (último reduto dos infelizes). A autora não tece considerações morais, mas põe a nu a infelicidade conformada daquelas vidas, submetidas ao "tem de ser assim, sempre assim foi e assim é que tem de ser". Não há narrador e as personagens encontram-se no espaço comum (o local de trabalho) pouco ou nada partilhando. O livro surge num momento em que já se adivinham outras possibilidades para o país e para as mulheres. E também essa nova vida, essa possibilidade de viver de outra forma, causa revolta em algumas (como desabafa uma das personagens “O que me custa não é o ter de estar subordinada aos princípios, mas sim umas submeterem-se e outras terem o atrevimento de se libertarem! Só por uma questão de meio ou de uns tantos anos … Com isso é que eu não posso!”).
        Será esta escrita datada? Mesmo que assim fosse isso em nada retiraria o interesse do livro e da autora, pela forma vibrante e viva como escreve. Mas, pela minha parte, acho que o livro acaba por ter ainda alguma actualidade, pois apesar de relatar uma realidade de há meio século atrás, há preconceitos que subsistem.
      Por mim, adicionei mais dois livros à minha lista de “livros quase impossíveis de encontrar, mas de que eu não desisto”: Uma portuguesa em Paris e Autobiografia de uma Mulher Romântica. Ambos de Natália Nunes, dados como esgotados ou fora do mercado. Mas vou procurar e há sempre a esperança de uma reedição. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

É isto que eu faço, Lindsey Addario

Diz-se que uma das consequências da exposição frequente a actos de violência é uma gradual perda de sensibilidade por parte dos observadores. Talvez isso explique por que motivo as redes sociais não foram invadidas por cartazes a dizer “je suis Manchester”. Já fomos Paris, Bruxelas, Londres e Madrid e começamos a ficar algo saturados pois ser algo mais que nós próprios é penoso. Lindsey Addario é norte-americana e tem feito carreira como fotojornalista. Neste livro narra as suas memórias profissionais e pessoais. As primeiras, na sua singularidade, encontram eco em muitos de nós. Desde as vicissitudes do divórcio parental passando pela dificuldade em encontrar um parceiro que a compreenda e apoie, não é difícil ao leitor (a) acompanhar as alegrias, tristezas e dúvidas da autora. Mas com a sua vida profissional, a história é outra. Tendo passado por alguns dos cenários mais violentos da história contemporânea Addario viveu na primeira pessoa aquilo que para os comuns mortais apenas lhe chega via televisão ou internet. Irão, Iraque, Afeganistão, Síria, Sudão são apenas alguns dos locais onde esteve e de onde junta fotografias neste livro onde nos mostra o dia-a-dia de um correspondente em cenário de guerra. Aquela realidade é impressionante (os relatos das mulheres sudaneses tocaram-me particularmente), como extraordinário é o facto de a autora manter a esperança, o equilíbrio e a capacidade de procurar a felicidade.  Mas talvez este último facto não seja assim tão surpreendente: o confronto com a mortalidade torna-nos mais selectivos quanto às nossas fontes de sofrimento. E esse é o passo de gigante para nos focarmos no essencial.